O melhoramento genético representa um dos principais caminhos para aumentar a produtividade e a rentabilidade da pecuária de Rondônia. O assunto foi tema de uma entrevista especial do RuralCast, programa do Olá Rondônia, realizada durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho.
Apresentado pelo jornalista Lenilson Guedes, o episódio recebeu Josué Giacometti, representante da Fazenda Raízes e integrante da Associação dos Pecuaristas de Rondônia (APROM). Durante a conversa, o convidado explicou como a escolha dos reprodutores influencia o futuro do rebanho e os resultados financeiros alcançados pelos produtores.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a utilização do chamado “boi de boiada”. A expressão foi usada para definir um animal sem origem genética conhecida, cujo pai, mãe e desempenho produtivo não são devidamente identificados.
De acordo com Josué Giacometti, muitos produtores escolhem um macho existente na própria propriedade ou compram um animal de outra fazenda acreditando que estão economizando. Entretanto, sem informações sobre a origem e as características transmitidas pelo reprodutor, a decisão pode comprometer o desenvolvimento do rebanho.
O produtor pode pagar menos inicialmente, mas deixar de ganhar durante vários anos por causa da baixa produtividade dos descendentes. Como um touro pode produzir um número elevado de bezerros durante sua vida útil, suas características genéticas exercem influência direta sobre uma parcela significativa do plantel.
Por esse motivo, o convidado defendeu a utilização de touros melhoradores, selecionados com base em sua origem, avaliação genética e capacidade de transmitir características desejáveis aos descendentes. O objetivo é corrigir deficiências e melhorar gradativamente o desempenho dos animais da propriedade.
MAIS PESO NA DESMAMA
Durante o RuralCast, Josué Giacometti explicou que um dos resultados esperados com o uso de genética de qualidade é o aumento do peso dos bezerros na desmama.
Conforme o exemplo apresentado pelo convidado, um touro melhorador pode contribuir para que os bezerros sejam desmamados com aproximadamente uma arroba a mais. Quando esse ganho é multiplicado pela quantidade de animais produzidos durante os anos de utilização do reprodutor, o retorno pode superar o valor investido em sua aquisição e manutenção.
A explicação demonstra que a genética não deve ser analisada somente pelo preço inicial do animal. O produtor precisa avaliar quanto o reprodutor poderá acrescentar em peso, qualidade e desempenho aos bezerros gerados ao longo de sua vida útil.
Esse aumento de produtividade pode representar mais animais valorizados, maior faturamento e melhor aproveitamento dos recursos da propriedade. Com resultados superiores na desmama e no desenvolvimento do gado, o produtor também pode alcançar mais eficiência nas etapas seguintes da produção.
SELEÇÃO DAS MELHORES MATRIZES
O melhoramento do rebanho, entretanto, não depende somente da aquisição de um touro de qualidade. Josué Giacometti destacou a necessidade de avaliar também as fêmeas que fazem parte do plantel.
A recomendação é identificar os animais, registrar a origem dos bezerros, realizar pesagens periódicas e acompanhar o desempenho de cada matriz. Dessa forma, o pecuarista consegue descobrir quais vacas produzem os melhores bezerros e quais permanecem na propriedade sem entregar resultados satisfatórios.
Se dois bezerros são criados com o mesmo pasto, o mesmo sal mineral e condições semelhantes, mas apresentam pesos diferentes na desmama, o produtor precisa investigar a razão dessa diferença. A habilidade materna, a produção de leite e a genética da vaca podem influenciar diretamente esse desempenho.
Matrizes que permanecem por longos períodos sem produzir, apresentam baixa habilidade materna ou geram bezerros com desempenho inferior representam custos para a propriedade. Elas consomem pastagem, suplementos e outros recursos sem proporcionar o retorno esperado.
Por isso, a seleção das melhores fêmeas e o descarte técnico dos animais improdutivos são etapas fundamentais para construir um rebanho mais eficiente. As filhas das melhores matrizes podem permanecer no plantel, enquanto os animais de menor desempenho são retirados gradativamente.
TRANSFORMAÇÃO ACONTECE AO LONGO DOS ANOS
O convidado também ressaltou que o melhoramento genético não produz uma transformação completa de um dia para o outro. O processo exige planejamento, avaliação e continuidade.
A cada nova geração, o produtor deve selecionar as fêmeas que apresentam os melhores resultados, corrigir as características indesejadas e utilizar reprodutores adequados aos objetivos da propriedade.
Se o rebanho apresenta animais excessivamente altos, por exemplo, o pecuarista pode buscar um touro capaz de transmitir características que ajudem a corrigir esse padrão. Da mesma forma, pode procurar animais com melhor desempenho de peso, precocidade, habilidade materna e outras qualidades importantes para o sistema produtivo adotado.
Josué Giacometti avaliou que um trabalho realizado de maneira consistente pode transformar significativamente o rebanho em aproximadamente cinco anos. Esse período permite substituir gradativamente os animais menos produtivos e consolidar características desejáveis no plantel.
INSEMINAÇÃO E TRANSFERÊNCIA DE EMBRIÕES
Além do uso de touros melhoradores, a entrevista apresentou outras ferramentas disponíveis para o avanço genético, como a inseminação artificial e a transferência de embriões.
A inseminação permite ao produtor utilizar a genética de reprodutores avaliados sem precisar manter todos esses animais na propriedade. Já a transferência de embriões possibilita multiplicar a genética das melhores matrizes.
Nesse sistema, uma vaca de alto valor genético pode ser utilizada como doadora, enquanto outras fêmeas, que possuem boa capacidade materna, recebem os embriões e conduzem a gestação. A técnica acelera a multiplicação das características desejadas e amplia as possibilidades de evolução do rebanho.
O convidado ressaltou, no entanto, que essas decisões devem ser acompanhadas por profissionais capacitados. Veterinários e técnicos podem ajudar o produtor a avaliar o plantel, estabelecer objetivos e escolher as ferramentas mais adequadas para sua realidade.
TECNOLOGIA A SERVIÇO DA PECUÁRIA
A modernização das propriedades também recebeu destaque no RuralCast. Josué Giacometti relatou que a Fazenda Raízes passou por um processo de transformação marcado pela adoção de novas práticas e tecnologias.
Além das ferramentas reprodutivas, a propriedade utiliza recursos como energia solar, sistemas de bombeamento e mecanismos que facilitam a distribuição de água aos animais. Em vez de obrigar o gado a percorrer grandes distâncias, a água pode ser conduzida até locais estratégicos, proporcionando mais conforto e contribuindo para o desempenho produtivo.
O uso da tecnologia também permite controlar melhor o rebanho. A identificação individual, as pesagens e os registros ajudam o produtor a tomar decisões baseadas em resultados concretos, reduzindo escolhas fundamentadas apenas na aparência dos animais.
Essa mudança transforma a pecuária em uma atividade cada vez mais profissional. Com informações organizadas, o produtor consegue descobrir onde está perdendo dinheiro, quais animais são mais eficientes e quais investimentos apresentam maior possibilidade de retorno.
IMPACTOS PARA A ECONOMIA DE RONDÔNIA
A discussão apresentada no RuralCast ultrapassou os limites das propriedades rurais. Josué Giacometti destacou que a melhoria da produtividade pode produzir efeitos positivos em toda a economia de Rondônia.
Se os animais ganham mais peso e chegam ao mercado com melhor desempenho, o produtor aumenta sua renda e passa a investir mais em sal mineral, equipamentos, medicamentos, serviços, infraestrutura e mão de obra.
Esse movimento fortalece o comércio, amplia a contratação de profissionais, gera impostos e movimenta diferentes setores ligados ao agronegócio. Assim, o melhoramento genético pode contribuir não somente para o pecuarista, mas também para municípios e empresas que dependem direta ou indiretamente da produção rural.
Durante a entrevista, o convidado apresentou uma reflexão sobre quanto Rondônia deixa de ganhar quando grande parte do rebanho é formada sem um planejamento genético adequado. Mesmo pequenas diferenças de peso, quando multiplicadas por milhões de animais, podem representar um impacto econômico expressivo.
PERMANÊNCIA DAS NOVAS GERAÇÕES NO CAMPO
Outro aspecto abordado foi a permanência dos jovens no meio rural. Segundo Josué Giacometti, muitos filhos de produtores deixam as propriedades porque não enxergam oportunidades de crescimento e geração de renda.
Quando a fazenda se torna mais produtiva, organizada e tecnologicamente desenvolvida, os jovens passam a visualizar novas possibilidades profissionais dentro da própria atividade familiar.
A modernização da pecuária pode transformar a propriedade em um empreendimento mais atrativo, capaz de oferecer renda, inovação e qualidade de vida. Esse processo também favorece a sucessão familiar e a continuidade das atividades rurais ao longo das gerações.
ATUAÇÃO DA APROM
A entrevista também apresentou o trabalho desenvolvido pela Associação dos Pecuaristas de Rondônia. Josué Giacometti explicou que a APROM foi criada com o objetivo de aproximar os produtores e fortalecer a representação do setor.
Entre as pautas mencionadas estão a regularização fundiária, o melhoramento genético, a prevenção de incêndios e a defesa dos interesses dos pecuaristas rondonienses.
A entidade busca promover a integração com instituições como Emater, Embrapa, Conselho Regional de Medicina Veterinária e Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. O propósito é reunir conhecimento técnico e desenvolver iniciativas que possam melhorar o rebanho do estado.
Josué Giacometti também destacou a participação da associação na 2ª AGROTEC e convidou a população a conhecer os animais e as tecnologias apresentados durante o evento.
RURALCAST NA 2ª AGROTEC
A participação do RuralCast na 2ª AGROTEC reforça a importância de aproximar informações técnicas dos produtores e da sociedade. Ao apresentar exemplos práticos sobre genética, produtividade e gestão, o programa contribui para ampliar o conhecimento sobre os desafios e as oportunidades da pecuária.
A conversa conduzida por Lenilson Guedes mostrou que a escolha de um reprodutor não deve ser tratada como uma decisão isolada. Ela faz parte de um planejamento que envolve genética, controle, avaliação, alimentação, tecnologia e gestão financeira.
Ao compartilhar a experiência da Fazenda Raízes, Josué Giacometti demonstrou que erros cometidos no passado podem servir de aprendizado para a construção de uma propriedade mais eficiente.
O episódio do RuralCast também deixou uma mensagem clara aos pecuaristas: investir em genética não significa apenas comprar um animal de maior valor. Significa conhecer o rebanho, medir resultados, selecionar os melhores exemplares e tomar decisões que aumentem a produtividade durante vários anos.
Em um estado onde a pecuária possui grande importância econômica, o avanço genético pode contribuir para produzir animais mais pesados, propriedades mais rentáveis e um setor rural cada vez mais competitivo.
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