Reforma tributária representa transformação na gestão das empresas e do agronegócio brasileiro
A implementação da reforma tributária brasileira não representa apenas a substituição de impostos. As novas regras também devem provocar mudanças na forma como empresas organizam suas operações, administram custos, cumprem obrigações fiscais e planejam suas atividades econômicas.
Para os produtores rurais, empresários do agronegócio e profissionais da contabilidade, compreender essas transformações será fundamental durante os próximos anos.
Esse foi o tema central de uma entrevista especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, realizada na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal, durante a segunda edição do Agro&Cont 2026.
A conversa foi conduzida pelo professor Charles Carminati e recebeu Márcio Aparecido Pereira Picolli, auditor fiscal da Secretaria da Fazenda de Roraima (SEFAZ-RR), que também participa dos trabalhos técnicos relacionados à implantação do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
Natural de Rondônia e com ligação acadêmica com Cacoal, Márcio retornou ao município como um dos especialistas convidados para debater a reforma tributária e seus efeitos sobre o setor produtivo.
Durante a entrevista, o auditor explicou como será a administração do novo imposto, apresentou sua avaliação sobre as mudanças previstas para o agronegócio e alertou para a necessidade de atualização dos profissionais que atuam na orientação de empresas e produtores.
Comitê Gestor do IBS será responsável por administrar novo imposto de estados e municípios
Um dos primeiros assuntos abordados foi a criação do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços, conhecido como CGIBS.
Márcio explicou que a estrutura representa uma inovação no modelo brasileiro de administração tributária.
Atualmente, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é administrado pelos estados, enquanto o Imposto Sobre Serviços (ISS) é de competência municipal.
Essa divisão produziu diferentes legislações e procedimentos, contribuindo para a complexidade do sistema tributário brasileiro.
Segundo o auditor, um dos objetivos da reforma é substituir esse modelo fragmentado por uma estrutura de gestão compartilhada e coordenada.
"A gente precisa sair de uma tributação de gestão descentralizada e ir para uma tributação centralizada", destacou.
O novo IBS será administrado por uma entidade que reúne representantes dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
A proposta é permitir uma gestão integrada da arrecadação, da regulamentação e de outras atividades relacionadas ao imposto.
Para Márcio, essa estrutura busca enfrentar problemas históricos de insegurança jurídica, divergências interpretativas e conflitos relacionados à tributação do consumo.
Por que o Brasil decidiu criar uma nova estrutura tributária?
Durante a entrevista, Márcio apresentou uma análise crítica sobre o modelo de tributação do consumo utilizado no país.
Segundo ele, a existência de diferentes regras estaduais e municipais contribuiu para a formação de um ambiente complexo, com elevado número de discussões administrativas e judiciais.
Essas dificuldades afetam tanto a administração pública quanto o setor empresarial.
Para os governos, a complexidade pode comprometer a previsibilidade da arrecadação.
Para os empresários, as diferenças de regras e interpretações aumentam a necessidade de acompanhamento jurídico e contábil.
O auditor ressaltou que sistemas de tributação sobre valor agregado são utilizados em numerosos países e serviram como referência para o desenvolvimento do novo modelo brasileiro.
Entretanto, a organização federativa do Brasil exigiu a criação de uma estrutura específica para administrar um tributo de competência compartilhada.
O Comitê Gestor surge justamente para coordenar essa atividade, preservando a participação dos entes federativos envolvidos.
Entenda como será formado o Comitê Gestor do IBS
Outro ponto importante da entrevista foi a explicação sobre a composição do Conselho Superior do Comitê Gestor.
Márcio destacou que a participação de estados e municípios foi estruturada para garantir equilíbrio na representação.
O Conselho Superior possui 54 integrantes titulares, distribuídos entre representantes estaduais, distritais e municipais.
São 27 cadeiras destinadas à representação dos estados e do Distrito Federal e outras 27 à representação dos municípios e do Distrito Federal, conforme as regras legais de composição.
"Paridade é quase que um mantra do comitê", afirmou.
Segundo o auditor, esse princípio também orienta a organização de diferentes áreas e atividades da entidade.
O Conselho Superior constitui a instância máxima de deliberação, enquanto outras estruturas desempenham funções administrativas e técnicas.
Entre elas estão áreas relacionadas à arrecadação, fiscalização, tributação, tecnologia e gestão de recursos.
A explicação foi apresentada para demonstrar ao público que o novo sistema envolve uma organização institucional mais ampla do que a simples criação de um imposto.
Receita Federal administrará CBS, enquanto Comitê Gestor ficará responsável pelo IBS
A entrevista também esclareceu a divisão de responsabilidades entre os novos tributos.
A reforma tributária estabelece dois impostos que possuem características semelhantes, mas competências diferentes.
A Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) pertence à esfera federal e será administrada pela Receita Federal.
Já o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) é de competência compartilhada entre estados, Distrito Federal e municípios, com administração coordenada pelo Comitê Gestor.
Ao explicar a estrutura, Márcio destacou que o governo federal não integra a composição do órgão responsável pela gestão do IBS.
"O governo federal não participa", afirmou, referindo-se à estrutura de representação do Comitê Gestor.
Essa separação é importante para compreender que a CBS e o IBS fazem parte de um novo modelo de tributação do consumo, embora possuam estruturas de administração distintas.
A coordenação entre essas estruturas será relevante para a implementação das novas regras e para o funcionamento das operações tributárias.
Reforma tributária prevê transição até 2033
Um dos maiores desafios apresentados pelo auditor está relacionado ao período de transição entre o sistema atual e o novo modelo tributário.
A implantação não acontecerá de maneira imediata.
O ano de 2026 marca a fase de testes, enquanto a CBS passa a ter sua cobrança regular a partir de 2027, conforme as regras aplicáveis à transição.
Entre 2029 e 2032, haverá a substituição gradual do ICMS e do ISS pelo IBS.
A conclusão está prevista para 2033, quando o novo modelo de tributação do consumo estará integralmente implementado.
Durante esse período, empresas e profissionais terão de acompanhar regras relacionadas aos tributos antigos e aos novos.
Márcio ressaltou que essa convivência representa um dos aspectos mais complexos da implementação.
"A gente realmente precisa conviver com os dois modelos", explicou.
Na avaliação do auditor, essa etapa poderá exigir grande esforço de adaptação dos sistemas fiscais, dos procedimentos empresariais e das equipes responsáveis pelo cumprimento das obrigações tributárias.
Agronegócio recebeu tratamentos favoráveis na reforma, avalia auditor
Um dos momentos de maior interesse para os produtores rurais foi a análise de Márcio sobre os impactos da reforma tributária no agronegócio.
O auditor afirmou que, em sua avaliação, o setor recebeu tratamentos diferenciados importantes e poderá apresentar uma situação relativamente favorável em determinados aspectos da nova tributação.
"O agro, ele saiu bem da reforma em termos de desonerações", afirmou.
A declaração foi acompanhada de uma ressalva: trata-se de uma percepção pessoal do especialista sobre o desenho da legislação.
Segundo ele, a importância econômica e social da produção agropecuária justifica atenção especial na elaboração das regras tributárias.
O agronegócio envolve desde a agricultura familiar até grandes empreendimentos e participa diretamente do abastecimento alimentar e da geração de atividades econômicas.
Entretanto, a avaliação de que o setor recebeu tratamentos favoráveis não significa que todos os produtores terão redução de carga tributária.
Os efeitos concretos dependerão das características das operações, dos produtos comercializados, das regras de enquadramento e das condições específicas de cada contribuinte.
A entrevista reforçou, portanto, a importância de estudar o novo sistema antes de realizar projeções sobre os custos tributários de cada atividade.
Produtores rurais precisarão compreender novas regras de enquadramento
Outro tema destacado foi a classificação dos produtores rurais dentro do novo sistema.
Márcio explicou que o debate técnico do Agro&Cont aborda as diferentes situações de enquadramento, incluindo produtores sujeitos ou não à condição de contribuintes do IBS e da CBS.
O especialista também mencionou as particularidades do produtor rural integrado, modalidade de organização produtiva presente em diferentes cadeias do agronegócio.
Segundo o auditor, a comparação entre o funcionamento atual do ICMS e as regras previstas para o IBS será importante para compreender as mudanças.
A discussão também considera produtores de diferentes portes, incluindo agricultores familiares e grandes empreendimentos agropecuários.
Cada situação exige atenção às disposições legais aplicáveis.
O tema evidencia que a reforma tributária não terá necessariamente o mesmo efeito sobre todos os participantes das cadeias produtivas.
Por isso, o acompanhamento especializado será fundamental para compreender obrigações, direitos e possibilidades existentes no novo ambiente tributário.
A reforma poderá mudar a maneira de fazer negócios no Brasil
Durante a entrevista, Márcio destacou que os impactos da reforma não devem ser analisados exclusivamente do ponto de vista da arrecadação.
Para ele, a mudança alcança a própria cultura de funcionamento dos negócios.
"A reforma é uma mudança não apenas tributária, mas uma mudança de cultura, de negócios", ressaltou, concordando com essa interpretação apresentada no debate público.
A declaração amplia o alcance da discussão para além dos profissionais diretamente responsáveis pelo cálculo de tributos.
Empresários, produtores rurais, administradores e gestores também precisarão compreender as transformações.
O novo sistema poderá influenciar a organização das operações comerciais, os procedimentos de faturamento, os controles fiscais e as decisões de planejamento.
No agronegócio, essas mudanças deverão ser analisadas considerando as particularidades de cada atividade produtiva.
O auditor reforçou que a compreensão dessas regras é importante para que os empresários possam se preparar de maneira adequada.
Contadores e profissionais do Direito precisam intensificar a atualização
Outro ponto central da entrevista foi a preparação dos profissionais responsáveis por orientar empresas e contribuintes.
Questionado pelo professor Charles Carminati sobre o nível de preparação do mercado, Márcio reconheceu que ainda existem desafios importantes na disseminação das informações.
Segundo ele, a amplitude da reforma exige um processo contínuo de estudo e capacitação.
"Ainda há uma necessidade muito grande de aprendizado", afirmou.
A declaração foi direcionada principalmente às classes contábil e jurídica, que terão papel relevante na interpretação e na aplicação das novas regras.
O auditor destacou que o novo modelo ainda exige compreensão de diversas questões técnicas e operacionais.
A atualização profissional será necessária não apenas durante os primeiros anos de implementação, mas ao longo de todo o período de transição.
Para empresários e produtores, a orientação desses profissionais poderá contribuir para evitar interpretações equivocadas e melhorar a preparação para as mudanças.
Período de transição poderá ser o momento de maior dificuldade
Embora tenha demonstrado otimismo em relação ao novo modelo, Márcio reconheceu que a fase de implementação poderá apresentar obstáculos.
Segundo ele, a necessidade de manter procedimentos relacionados aos tributos atuais enquanto os novos são introduzidos aumentará a complexidade operacional durante determinado período.
Na avaliação do auditor, a transição exigirá ajustes nos sistemas de administração tributária e na rotina das empresas.
Ele explicou que seria mais simples substituir todo o sistema de uma única vez, mas essa alternativa não é viável diante das dimensões da mudança.
Por isso, a implantação gradual foi considerada necessária.
O período será marcado por adaptações que envolverão administrações públicas, profissionais e contribuintes.
Márcio utilizou a comparação com uma viagem para explicar que poderão existir dificuldades antes de o sistema alcançar sua configuração definitiva.
Novo modelo não é perfeito, mas representa avanço, afirma auditor
Na parte final da entrevista, Márcio apresentou uma mensagem de otimismo sobre os resultados esperados da reforma tributária.
O auditor reconheceu que o novo sistema possui aspectos que ainda poderão ser aprimorados.
Entretanto, avaliou que o modelo representa um avanço em relação à estrutura atual.
"Não é um modelo perfeito, mas é um modelo muito bom", declarou.
Segundo ele, a adoção de uma estrutura baseada na tributação sobre valor agregado aproxima o Brasil de práticas utilizadas em outras economias.
A expectativa apresentada é de um sistema mais organizado, com maior integração administrativa e melhores condições para o ambiente de negócios.
O auditor ressaltou, porém, que a implementação exigirá esforço técnico e institucional.
A avaliação positiva foi acompanhada do reconhecimento de que a transição deverá produzir dificuldades operacionais.
Auditor aposta que resultado da reforma será mais bem compreendido em 2033
Ao encerrar sua participação, Márcio afirmou acreditar que a percepção sobre a reforma tributária poderá mudar após a conclusão do período de transição.
Segundo ele, os primeiros anos poderão despertar preocupação entre empresários e profissionais devido à complexidade das adaptações.
Entretanto, sua expectativa é de que o funcionamento integral do novo modelo permita reconhecer os benefícios da mudança.
"Eu tenho certeza que em primeiro de janeiro de trinta e três você vai olhar para trás e ter certeza que a viagem valeu a pena", afirmou.
A declaração representa uma avaliação otimista do entrevistado, e não uma garantia sobre os resultados futuros da legislação.
Na opinião do auditor, o novo sistema possui potencial para melhorar as condições de funcionamento das administrações tributárias, das empresas e da sociedade.
O alcance desses objetivos dependerá da implementação efetiva, do aprimoramento das regras e da capacidade de adaptação dos participantes.
Trajetória acadêmica em Cacoal marca retorno do auditor a Rondônia
A entrevista também teve um momento de lembrança da trajetória acadêmica do convidado.
Márcio contou que cresceu e estudou em Cacoal, onde concluiu sua formação universitária em 2004.
Durante o podcast, ele relembrou a convivência acadêmica com o professor Charles Carminati.
O auditor relatou sua experiência profissional na administração tributária e destacou que, nos últimos anos, passou a se dedicar de maneira mais intensa aos trabalhos relacionados à implementação do IBS.
O retorno a Cacoal como palestrante do Agro&Cont foi apresentado como uma oportunidade de compartilhar conhecimentos com profissionais e estudantes de sua região de origem.
Agro&Cont aproxima especialistas e setor produtivo
Durante a segunda edição do Agro&Cont 2026, Márcio Picolli integrou a programação de debates sobre a transição do ICMS para o IBS e os impactos para o agronegócio de Rondônia.
O encontro contou com a participação de profissionais da contabilidade, especialistas tributários, empresários, estudantes e representantes de instituições.
A iniciativa fortalece a aproximação entre o conhecimento técnico e os desafios enfrentados pelo setor produtivo.
A parceria com a Universidade Federal de Rondônia também contribui para ampliar a participação da comunidade acadêmica nas discussões relacionadas às transformações econômicas e tributárias.
A cobertura especial do RuralCast, do Grupo Amazun, permite que essas informações alcancem um público mais amplo, incluindo produtores e empresários que não estiveram presentes no evento.
O futuro do agronegócio também dependerá do conhecimento tributário
A entrevista com Márcio Aparecido Pereira Picolli demonstrou que a reforma tributária brasileira deverá exigir mudanças importantes na relação entre empresas, profissionais e administração pública.
A criação do Comitê Gestor do IBS, a implementação da CBS e a substituição gradual do ICMS e do ISS representam uma reorganização profunda da tributação sobre o consumo.
Para o agronegócio de Rondônia, o desafio será compreender como as novas regras se aplicarão às diferentes atividades e estruturas empresariais.
A avaliação do auditor de que o setor recebeu tratamentos diferenciados favoráveis traz uma perspectiva de otimismo, mas não elimina a necessidade de análises específicas.
A preparação profissional, a atualização dos sistemas e o planejamento empresarial serão fundamentais durante o período de transição.
A principal reflexão deixada pelo episódio é que a reforma tributária não exige apenas compreender novos impostos, mas também preparar empresas e produtores para uma nova forma de organizar e administrar seus negócios.
A entrevista integra a cobertura especial do RuralCast, do Grupo Amazun, durante o Agro&Cont 2026, realizado na Universidade Federal de Rondônia, em Cacoal, com conteúdos destinados ao canal Olá Rondônia, no YouTube.