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Quem vai assumir as fazendas de Rondônia? Falta de sucessores pode ameaçar patrimônio construído por gerações

Em entrevista ao RuralCast, jornalista, comentarista de agronegócio e produtor rural Dhiony Costa alerta para o envelhecimento dos produtores, os conflitos entre herdeiros, a importância do planejamento familiar

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Quem ficará responsável pelas fazendas de Rondônia quando os produtores que dedicaram décadas à atividade rural decidirem se aposentar? Os filhos estão preparados para assumir os negócios da família? E o que acontece quando os herdeiros escolhem outras profissões e não demonstram interesse em continuar trabalhando no campo?

Essas questões foram o ponto central de uma edição do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, apresentado por Inácio Rocha, que recebeu o jornalista, comentarista de agronegócio e produtor rural Dhiony Costa para discutir os desafios da sucessão familiar nas propriedades rurais.

A entrevista, gravada em 29 de outubro de 2026, abordou os riscos da falta de planejamento, a possibilidade de conflitos familiares, a organização financeira das fazendas, o envelhecimento dos produtores e as transformações provocadas pela tecnologia.

Com experiência na comunicação e vivência no campo desde a infância, o convidado apresentou exemplos de sua própria trajetória familiar e de situações observadas entre produtores de Rondônia.

Ao longo da conversa, uma reflexão ganhou destaque: herdar uma propriedade rural é diferente de estar preparado para administrar o negócio construído pela família.


Sucessão rural: um problema que começa muito antes da herança

A história da formação de muitas propriedades rurais de Rondônia está ligada à chegada de famílias de outros estados, especialmente durante as décadas de 1970 e 1980.

Dhiony Costa relatou que sua família chegou do Mato Grosso quando ele ainda era criança, em um período marcado pela expansão das atividades agrícolas e pela construção de novas comunidades rurais.

O convidado lembrou que muitos produtores precisaram enfrentar dificuldades para abrir áreas, desenvolver lavouras, criar animais e estruturar suas propriedades.

Entretanto, segundo ele, a dedicação ao trabalho cotidiano nem sempre foi acompanhada de planejamento para a continuidade do negócio pelas gerações seguintes.

Ao analisar essa realidade, apresentou uma pergunta fundamental:

"Porque como é que eu vou transferir algo que eu não sei como é que tá?"

A declaração chama a atenção para propriedades que possuem patrimônio significativo, mas não mantêm registros organizados de custos, receitas, investimentos e responsabilidades.

Sem essas informações, a transferência da administração pode se tornar um processo marcado por insegurança e conflitos.

Filhos não são obrigados a assumir a fazenda dos pais

Um dos momentos mais importantes da entrevista ocorreu quando Inácio Rocha questionou se os filhos de produtores rurais possuem a obrigação de assumir a atividade familiar.

Dhiony foi direto:

"Primeiro, ele não tem obrigação."

Na avaliação do entrevistado, cada pessoa precisa ter liberdade para escolher sua formação profissional e decidir o caminho que deseja seguir.

Entretanto, o jornalista explicou que a maneira como os pais apresentam a realidade do campo pode influenciar a percepção das crianças sobre a atividade rural.

Segundo ele, existem produtores que passam a semana trabalhando na fazenda e, quando chegam em casa, compartilham principalmente reclamações sobre os problemas enfrentados.

Os filhos acabam associando o trabalho rural ao cansaço, às dificuldades financeiras e à ausência dos pais.

Em outros casos, as crianças são levadas à propriedade durante as férias, mas encontram apenas tarefas que não despertam seu interesse.

Esse comportamento pode contribuir para o distanciamento entre as novas gerações e o negócio familiar.

O convidado defendeu que a aproximação com o campo deve ocorrer de maneira gradual, respeitando o desenvolvimento, os interesses e as escolhas de cada filho.

Por que as famílias só discutem sucessão quando surge um problema?

Outro assunto debatido foi a dificuldade de conversar sobre herança, patrimônio e responsabilidades enquanto os proprietários ainda estão administrando suas fazendas.

Dhiony explicou que muitas famílias deixam para abordar o tema quando o produtor já está idoso, enfrenta problemas de saúde ou ocorre uma situação inesperada.

Na avaliação dele, esse comportamento torna a transição mais complexa.

O problema se agrava quando filhos e cônjuges não possuem conhecimento sobre as condições financeiras da propriedade.

A falta de informações pode dificultar decisões relacionadas à continuidade das atividades, pagamento de dívidas e administração de recursos.

O convidado defendeu que as famílias desenvolvam mecanismos simples de acompanhamento financeiro, mesmo que inicialmente sejam utilizados registros em cadernos.

O objetivo é permitir que todos compreendam como o negócio funciona e quais responsabilidades estão envolvidas.

Para Dhiony, a sucessão precisa ser entendida como um processo de preparação, e não como uma decisão tomada apenas diante de uma emergência.

Conflitos entre irmãos podem comprometer o futuro da propriedade

A divisão de responsabilidades entre familiares foi outro tema central.

Inácio Rocha questionou como evitar que diferenças entre irmãos, pais e filhos comprometam a continuidade da fazenda.

O convidado explicou que administrar uma propriedade exige compreender não apenas a produção, mas também os diferentes perfis das pessoas envolvidas.

Alguns familiares possuem maior habilidade para planejamento e organização, enquanto outros apresentam facilidade para execução das atividades.

"Cada um tem um perfil."

Segundo Dhiony, essas diferenças não precisam resultar em conflitos. Quando reconhecidas e administradas adequadamente, podem contribuir para melhorar os resultados do empreendimento.

Entretanto, quando cada integrante procura impor sua maneira de trabalhar, decisões simples podem se transformar em disputas.

A orientação apresentada foi buscar consenso, distribuir responsabilidades e estabelecer objetivos que atendam aos interesses da família e da atividade econômica.

Herdar terras não significa saber administrar uma fazenda

Uma das distinções mais importantes da entrevista foi apresentada durante a discussão sobre a diferença entre herdeiro e sucessor.

Para Dhiony, o herdeiro recebe direitos sobre um patrimônio, enquanto o sucessor assume a responsabilidade de dar continuidade à atividade desenvolvida.

O jornalista avaliou que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas famílias rurais está justamente na ausência de preparação para administrar o negócio.

Um filho pode receber parte de uma propriedade sem conhecer os processos produtivos, os custos operacionais ou o funcionamento do mercado.

Nessas circunstâncias, a família poderá considerar alternativas como arrendamento, contratação de gestores ou venda de ativos, dependendo de suas necessidades e objetivos.

O convidado também destacou que a formação acadêmica pode representar uma vantagem para a sucessão.

Profissionais que estudaram administração, economia, agronomia ou outras áreas podem contribuir com conhecimentos importantes, desde que exista diálogo com as pessoas que já possuem experiência prática.

Experiência no campo e formação acadêmica podem trabalhar juntas

Durante a entrevista, Inácio Rocha apresentou uma situação comum: um filho permanece trabalhando na fazenda, enquanto outro sai para estudar e desenvolve uma carreira fora do setor rural.

Na avaliação de Dhiony, os dois podem oferecer contribuições importantes para a administração do patrimônio familiar.

O filho que permaneceu na propriedade conhece a rotina, as necessidades produtivas e as dificuldades operacionais.

Já aquele que buscou formação em outra área pode apresentar conhecimentos sobre gestão, tecnologia, investimentos e novos mercados.

"Eu tenho uma visão de mercado que o meu irmão não tem."

O entrevistado explicou que a união dessas competências pode fortalecer a atividade empresarial.

Entretanto, para que essa integração aconteça, os familiares precisam construir relações de confiança e estabelecer critérios claros para as decisões.

A conversa também abordou a necessidade de reconhecer o trabalho de quem permaneceu durante anos contribuindo para o desenvolvimento da propriedade.

O tema exige atenção especial porque os direitos sucessórios e eventuais compensações devem respeitar a legislação e a realidade patrimonial de cada família.

Holding familiar entra no debate sobre proteção patrimonial

As estratégias de organização jurídica do patrimônio também fizeram parte da entrevista.

Questionado sobre alternativas para reduzir conflitos e facilitar o planejamento sucessório, Dhiony mencionou as holdings familiares.

O mecanismo consiste na utilização de uma pessoa jurídica para organizar a titularidade ou a administração de determinados bens e participações, conforme a estrutura adotada.

O convidado explicou que o planejamento pode estabelecer regras de participação, responsabilidades e mecanismos de gestão.

Entretanto, ressaltou a necessidade de buscar orientação especializada.

Contadores, advogados e consultores financeiros podem avaliar as características de cada família e indicar alternativas adequadas.

É importante destacar que a constituição de uma holding não elimina automaticamente tributos, despesas sucessórias ou disputas familiares. Os efeitos dependem da estrutura escolhida, da legislação aplicável e do planejamento realizado.

O ponto central da discussão foi a necessidade de organizar o patrimônio antes que a família enfrente dificuldades para administrá-lo.

Tecnologia pode despertar o interesse dos jovens pelo campo

Um dos exemplos mais interessantes apresentados por Dhiony envolveu um produtor que enfrentava dificuldades para aproximar os filhos das atividades rurais.

Segundo o relato, os jovens passavam grande parte do tempo utilizando celulares, televisão e videogames.

A situação começou a mudar quando um consultor sugeriu a utilização de um drone agrícola.

O equipamento despertou o interesse de um dos filhos, que passou a participar das atividades desenvolvidas na propriedade.

A experiência foi apresentada como demonstração de que a tecnologia pode criar novas formas de relacionamento entre juventude e agronegócio.

Durante a entrevista, Inácio Rocha também destacou a importância de encontrar ferramentas capazes de tornar a atividade rural mais atraente.

Entretanto, Dhiony ponderou que o investimento precisa estar adequado às condições financeiras da propriedade.

"A tecnologia, ela tende a agregar valor dentro da produção."

Para o convidado, inovar não significa necessariamente adquirir equipamentos caros.

Ferramentas simples que reduzem esforço físico, melhoram processos e aumentam a eficiência também representam avanços tecnológicos.

O desafio é identificar soluções que realmente atendam às necessidades do produtor.

Jovens podem contribuir para modernizar as propriedades

A modernização do agronegócio também foi abordada como uma oportunidade para aproximar as gerações.

Dhiony relatou situações em que filhos retornam de universidades com novas ideias, mas encontram resistência dos pais para modificar práticas tradicionais.

Segundo ele, a dificuldade pode surgir porque o produtor mais experiente construiu seus conhecimentos a partir de métodos que funcionaram durante muitos anos.

Uma das sugestões apresentadas foi testar novas práticas em pequenas áreas antes de ampliar os investimentos.

O exemplo discutido envolveu separar uma parte da propriedade para experimentar uma técnica diferente, permitindo avaliar seus resultados.

A estratégia pode reduzir resistências e criar condições para que conhecimento científico e experiência prática sejam utilizados em conjunto.

A reflexão também reforçou que a modernização precisa considerar o tamanho da propriedade, o acesso ao crédito, os custos e as características de cada atividade.

Envelhecimento dos produtores pode acelerar a concentração de terras

Um dos alertas de maior impacto apresentados no RuralCast foi sobre a possibilidade de propriedades familiares deixarem de contar com sucessores interessados em continuar a produção.

Dhiony avaliou que o envelhecimento dos produtores, associado à saída dos filhos para outras profissões, pode contribuir para mudanças na estrutura fundiária.

Em sua percepção, algumas propriedades acabam sendo vendidas ou incorporadas por produtores que já atuam nas proximidades.

O convidado relatou observar situações em que áreas anteriormente pertencentes a diferentes famílias passaram a integrar propriedades maiores.

A tendência, segundo sua análise, pode se intensificar quando os herdeiros não desejam assumir o trabalho rural.

Essa avaliação representa uma percepção do entrevistado e não uma estimativa estatística sobre a futura concentração de terras em Rondônia.

O debate levanta uma questão importante: como preservar a viabilidade econômica da agricultura familiar e garantir oportunidades para que novas gerações possam permanecer no campo por escolha?

Vender, arrendar ou contratar um gestor profissional?

A entrevista também apresentou alternativas para famílias cujos filhos não desejam administrar diretamente as propriedades.

Questionado sobre a melhor decisão, Dhiony afirmou:

"Eu defendo que não se desfaça."

O convidado explicou que sua preferência pessoal é preservar o patrimônio, buscando alternativas para que continue gerando renda.

Entre as possibilidades discutidas estão o arrendamento, a contratação de administradores profissionais e a utilização de empresas especializadas em gestão rural.

Essas alternativas permitem separar a propriedade do patrimônio de sua operação cotidiana, conforme a estrutura escolhida.

Entretanto, nenhuma solução é universal. A decisão depende das condições financeiras, dos objetivos familiares, das características do imóvel e das obrigações legais.

Dhiony ressaltou a importância de avaliar a capacidade de gerar receita antes de tomar decisões definitivas.

Fazenda pode movimentar dinheiro e ainda enfrentar dificuldades financeiras

Outro tema importante foi a diferença entre movimentação financeira e resultado econômico.

Durante a entrevista, Inácio Rocha questionou se uma fazenda aparentemente rentável poderia enfrentar dificuldades graves por falta de planejamento.

Dhiony apresentou um exemplo envolvendo produtores que dependem de crédito para manter suas atividades.

Segundo ele, existem situações em que o dinheiro entra na propriedade, mas os valores recebidos não são suficientes para cobrir os custos operacionais.

Para manter o negócio funcionando, o produtor recorre a financiamentos.

O problema pode se agravar quando ocorrem quedas nos preços de comercialização, aumento das despesas ou imprevistos familiares.

O convidado mencionou situações em que produtores ofereceram bens como garantia de operações de crédito, expondo parte de seu patrimônio a riscos financeiros.

A discussão destacou a importância de acompanhar custos, receitas, fluxo de caixa, endividamento e capacidade de pagamento.

A sustentabilidade econômica da fazenda depende de resultados que permitam manter as atividades e enfrentar períodos de instabilidade.

Além da sucessão, convidado propõe reflexão sobre o potencial mineral

Na parte final do episódio, Dhiony apresentou uma reflexão sobre o conhecimento que os produtores possuem a respeito de suas propriedades.

Utilizando uma história de caráter ilustrativo, relatou o caso de um herdeiro que teria vendido uma área sem conhecer seu potencial mineral.

O exemplo foi utilizado para demonstrar a importância de avaliar adequadamente os bens recebidos.

O convidado também comentou características geológicas de Rondônia e a possibilidade de existência de recursos minerais em determinadas regiões.

"Além do capim, o que mais tem debaixo do solo da sua terra?"

A pergunta foi apresentada como reflexão sobre o conhecimento do patrimônio, e não como comprovação de que propriedades específicas possuem reservas economicamente exploráveis.

A existência de recursos minerais depende de estudos geológicos, documentação e avaliações técnicas.

Produzir alimentos e agregar valor são desafios para o futuro do agronegócio

No encerramento, Dhiony ampliou a discussão para o papel do agronegócio brasileiro na economia mundial.

O entrevistado defendeu a necessidade de fortalecer a produção de alimentos e ampliar o desenvolvimento de tecnologias ligadas ao setor rural.

Também destacou a importância de agregar valor aos produtos agrícolas antes da comercialização.

Segundo sua análise, o Brasil pode ampliar oportunidades econômicas ao investir em processamento, industrialização, qualificação profissional e inovação.

A proposta envolve deixar de depender exclusivamente da exportação de matérias-primas e buscar maior participação em cadeias produtivas de valor agregado.

O convidado considerou que essas transformações podem contribuir para a geração de renda e o fortalecimento da economia nacional.

O futuro das fazendas começa com o diálogo dentro de casa

A entrevista evidenciou que a sucessão rural envolve questões que vão muito além da divisão de terras entre herdeiros.

Preparar a continuidade de uma propriedade exige planejamento, conhecimento dos custos, organização patrimonial, capacidade de gestão e respeito às escolhas individuais.

Também ficou evidente que a tecnologia e a qualificação profissional podem contribuir para despertar o interesse das novas gerações, desde que sejam acompanhadas de condições reais de participação.

Para muitas famílias de Rondônia, as fazendas representam não apenas patrimônio financeiro, mas histórias de trabalho, migração, esforço e construção de oportunidades.

O principal alerta do episódio é que preservar esse legado depende de decisões tomadas antes que a sucessão se transforme em uma emergência.

O episódio do RuralCast, apresentado por Inácio Rocha, com participação de Dhiony Costa, integra as produções do Grupo Amazun, com distribuição pelo canal Olá Rondônia, no YouTube, pelos portais de notícias e pelas emissoras parceiras.


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